Se você é um profissional da área da saúde, provavelmente já esteve ou está às voltas da acreditação , protocolos e outros instrumentos que ajudam a suprimir ou minimizar danos aos(às) pacientes. As instituições de saúde, ao longo da história criaram métodos para que a segurança dos(as) usuários estivesse no topo da lista de suas prioridades. Este feito, sem dúvida, trouxe um imenso avanço nestes setores, garantindo a tranquilidade da população e respaldo técnico para construção de ações das equipes. Entretanto, mesmo com todo aparato metodológico, de infraestrutura e tecnológico, o(a) profissional de saúde continua sujeito a se envolver em situações que chamamos de “evento adverso” e/ou “evento sentinela”.

De acordo com a Joint Commission International (2014) o evento sentinela é um fato inesperado que leva à morte ou perda grave e permanente da função, não relacionada ao curso natural da doença ou condição subjacente. Sendo assim, compreendemos que a “primeira vítima” é o(a) paciente, bem como seus familiares e rede de apoio e a “segunda vítima” o(a) profissional de saúde que sofre consequências emocionais significativas após um evento traumático desta natureza.
O conceito “segunda vítima”, portanto, diz respeito à situação em que um(a) profissional de saúde esteve envolvido(a) em um evento adverso ou um “erro” médico e se torna uma “vítima secundária”. Este termo foi usado no ano 2000, por Albert Wu, professor de política e gestão em saúde na Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health . Dada a magnitude que uma situação como essa pode desencadear, é importante reconhecer o impacto desse fenômeno na equipe de saúde e buscar meios para reduzir o estresse e a pressão desses(as) profissionais. Culpar e punir ainda são práticas comuns nas instituições – resultando muitas vezes em sentimentos de vergonha pelo(a) profissional e colegas envolvidos em um incidente. Estar implicado(a) em situações como essa, pode fazer o(a) profissional se sentir sobrecarregado(a) e emocionalmente exausto(a), apresentar comportamentos como perda de confiança levando à um risco aumentado de burnout e depressão. Tal constatação foi corroborada por Quadrado, Tronchin e Maia (2020) em uma revisão de literatura sobre “segunda vítima” ao citar que dentro de uma vivência de profissionais de saúde experientes envolvidos diretamente em eventos adversos, existiu “repercussões negativas e devastadoras geradas pela falta de apoio, as quais culminaram em ansiedade, depressão e preocupações sobre a capacidade de realizar suas atividades”
Culturalmente, existe uma grande expectativa em torno da figura do(a) profissional de saúde – “heróis que usam máscara”. Entretanto, precisamos lembrar que a formação e o dia a dia destas pessoas são permeados de muitas dificuldades, dilemas éticos e falhas de comunicação, situações que favorecem o surgimento de emoções contraditórias, embaraçosas e muitas vezes, sem o apoio necessário para ressignificálas. Países como Canadá, Estados Unidos e Espanha demonstram maior robustez quando se trata de oferecer apoio aos(as) profissionais que se encontram nesta condição. No Brasil, o tema parece ser incipiente e as pesquisas, consequentemente, ficam aquém do esperado para um debate mais preciso. E como sugere um estudo realizado por Burlison, J. D., Scott, S. D., Browne, E. K., Thompson, S. G., & Hoffman, J. M. (2017) é justamente o reconhecimento destes eventos que faz com que mais programas de apoio sejam criados. A saúde mental dos profissionais pode e deve ser foco de políticas/práticas de trabalho que fomentem um ambiente de trabalho saudável e seguro, além de uma lente calibrada por parte das instituições com o intuito de se instrumentalizar e oferecer o melhor suporte emocional possível às equipes de saúde.
Sugestão de consulta/leitura: https://www.segundasvictimas.es/